TEXTOS

WAIT ou a inveja das feras selvagens

A verdade é que quem espera nem sempre alcança. Por outro lado, o momento da espera pode transformar-se numa pausa tão angustiante que a inércia nos tolda de tal forma a capacidade de pensar e agir, que a sensação é a de que o tempo congelou e nós petrificámos com ele (mesmo que o coração pareça ameaçar detonar). Esperar pode significar, literalmente, ter a vida em suspenso, dependendo da gravidade da revelação do momento que sempre se segue (e anseia). Não obstante, esperar pode implicar simplesmente aguardar com tranquilidade; aliás, o quotidiano é feito de constantes esperas, muitas vezes impercetíveis, em que assistir aos minutos a correr uns atrás uns dos outros quase nos poderia parecer a coisa mais natural do mundo.

Winnie, em Dias Felizes (Samuel Beckett, 1961), repete gestos diários até à exaustão, até ao desespero se instalar, forjando assim uma aparente normalidade, e fintando a espera pelo inevitável fim. A protagonista está em suspenso, prefere o adiamento à tomada de uma resolução definitiva e, do início à conclusão, na peça, o pior parece ainda não ter efetivamente acontecido – aliás, em toda a obra de Beckett é assim. O autor, efetivamente presente na mostra com NOT I (1972-77), acaba por pairar sob toda a exposição,  contribuindo para despoletar reflexões sobre o que se pode ainda esperar da arte, mesmo que o contexto não seja o do pós-guerra, da Segunda, em que todas as atrocidades cometidas pareceram comprometer irremediavelmente as possibilidades de representação de humanidade.

O conceito curatorial definido por Orlando Franco para WAIT, exposição colectiva patente no Museu Colecção Berardo até 14 de abril, em que assume simultaneamente o papel de curador e artista, gravita precisamente em torno da noção de espera. O conceito é original e suficientemente abrangente para potenciar cruzamentos mais ou menos inusitados entre obras que não foram produzidas especificamente para o contexto expositivo. Da autoria de cerca de vinte artistas, maioritariamente portugueses e homens (André Banha, Andres Serrano, António Júlio Duarte, António Olaio, Carla Cabanas, Dalila Gonçalves, Eugenio Ampudia, Gonçalo Barreiros, João Ferro Martins, João Pombeiro, Luísa Jacinto, Orlando Franco, Paulo Mendes, Pedro Cabral Santo, Rodrigo Tavarela Peixoto, Samuel Beckett, Sara & André, Susana Anágua e Tiago Baptista), os trabalhos em exposição materializam-se em diferentes media: do vídeo à fotografia, passando pela escultura, pintura e instalação. Muitos dos diálogos encenados por Orlando Franco, na generalidade com manifesto sucesso, assentam na multiplicidade de discursos que o pressuposto da espera pode despertar. A morte, o desejo, a ambição, a fuga, o amor ou a frustração, são alguns dos interlocutores privilegiados que acabaram por ser convocados.

A escultura de Pedro Cabral Santo, Pinocchio è malato, segue a tendência (mais ou menos explícita) do corpo de trabalho do artista para suster uma dimensão de ativismo político em que a componente existencialista assume protagonismo. Este Pinóquio está manifestamente doente (disforme, atrofiado), fechado sobre si mesmo. Parece estar de castigo, voltado contra uma parede, ou talvez esteja desesperado por não encontrar nenhuma possibilidade de fuga. O que ele está é, definitivamente, à espera; e quem espera, por vezes, desespera. A obra é uma metáfora sobre a verdade e a mentira no mundo contemporâneo em que distinguir uma da outra se tornou extremamente difícil e desafiante.

Em RED POWER, instalação escultórica que Paulo Mendes apresenta publicamente pela quarta vez (a primeira foi no extinto espaço expositivo portuense Pêssego prá Semana) invoca, com ironia, o sistema capitalista falocêntrico em que o consumismo desenfreado forja relações de poder e afetividade através da posse de objetos considerados fétiche (que podem até abarcar uma certa aura mística/sagrada). Um Ferrari sugere energia em potência, latente, abarcando uma leitura também sexual. A masculinidade de um homem, e a sua capacidade de engate, saem supostamente reforçadas no caso de se encontrar ao volante de uma viatura destas; para mais, vermelha. Ainda que a cor vermelha, referenciada no título da obra, sugira não só uma conotação sexual, invocando também o paradoxo do vermelho ser simultaneamente a cor da revolução, da esquerda anticapitalista.

A exposição vem contribuir para repensar o papel do artista-curador que, apesar de ter sido recorrentemente assumido ao longo da história da arte, no contexto da contemporaneidade surge quase sempre como despoletador de polémica e contestação. As opiniões dividem-se relativamente à legitimidade da pontual acumulação de papéis. No panorama nacional mais recente destacam-se alguns artistas que, de forma mais ou menos recorrente, e com estímulos distintos, têm assumido esta duplicidade de papéis. Não será coincidência que dois deles tenham sido convidados para integrar a exposição: Paulo Mendes (que encara as exposições que comissaria como objetos artísticos, instalações autorais) e Pedro Cabral Santo (a quem interessa, sobretudo, contribuir para dar visibilidade a jovens artistas ainda fora do circuito). WAIT não corresponde à primeira incursão de Orlando Franco no comissariado de exposições, é sim, indiscutivelmente, a primeira que decorre num espaço com o peso institucional e legitimador do Museu Coleção Berardo.

Um dos méritos de Orlando Franco, em WAIT, na qualidade de curador, foi ter conseguido resistir à tentação de povoar em excesso o desafiante espaço expositivo; as peças respiram efetivamente e estabelecem relações sugestivas entre si. A possibilidade de integrar artistas que normalmente circulam em contextos mais fechados e alternativos revelou-se outra opção elogiável. A temática escolhida contribuiu para criar uma exposição enquanto “oeuvre ouverte”, repescando o conceito introduzida por Umberto Eco, com todas as divergentes e enriqueceras possibilidades de leitura que isso suscita. A decisão de fechar o percurso expositivo com uma segunda obra da sua autoria, menos pujante, pode parecer questionável, mas não compromete, de todo, a pertinência das opções curatoriais. Referenciar, ainda, que o catálogo integra um pequeno questionário respondido por quase todos os artistas que se pode revelar um instrumento interessante para pensar, por exemplo, o papel da instituição artística do século XXI, o impacto do digital  ou ainda, as referências das quais os artistas em exposição se assumem herdeiros.

 

“E se, por razões obscuras, nenhum esforço a mais for possível, basta fechar os olhos — (fecha os olhos) — e esperar que venha o dia — (abre os olhos) — o dia feliz que virá, em que toda carne derreterá a tantos graus e a noite da lua durará tantas centenas de horas. (Pausa). É o que me consola muito, quando perco o ânimo e invejo as feras selvagens”

Samuel Beckett, Dias Felizes, 1961

Publicado na Revista Umbigo:

WAIT ou a inveja das feras selvagens


Wait – da curadoria como criação artística

Miriam Tavares, fevereiro 2019

publicado originalmente na revista ARTECAPITAL.net        https://www.artecapital.net/exposicao-597-colectiva-wait

Nothing happens. Nobody comes, nobody goes. It’s awful.
― Samuel Beckett, Waiting for Godot

 

O artista Orlando Franco criou uma obra, em forma de exposição, à volta de um conceito muito caro à arte europeia pós-II Guerra Mundial: o conceito de espera. Wait, nome que deu à sua exposição, que como disse é um trabalho de curadoria, é, também, uma obra concebida num espaço – o Museu da Coleção Berardo, e que conjuga e confronta uma série de artistas, tendo como eixo central uma peça do dramaturgo irlandês Samuel Beckett. O dramaturgo que experimentou, na linguagem, novas formas de dizer outras coisas usando, no entanto, as mesmas e gastas palavras, além da sua escrita para teatro, escreveu e realizou algumas obras para a televisão. O que ele pretendia era esvaziar de sentido os termos que, de tanto uso, já não serviam para nada – meras formas de cortesia, uma linguagem quase que puramente conativa. Ao repetir ad absurdum, num loop infinito, palavras e frases quotidianas, Beckett reinventou a linguagem, criando mesmo uma nova língua na dramaturgia, e nas artes, ocidentais.

Fruto de um período obscuro, como diria o filósofo Ortega y Gasset – eu sou eu e as minhas circunstâncias, Beckett reflete sobretudo acerca daquele momento em suspenso que se iniciou com o fim da II Guerra e com o início de outra Guerra, a fria, jogada noutro território – o das palavras. Orlando Franco recupera as ideias de Beckett, além de uma das suas obras, para conjugar, com esta exposição, o verbo esperar: “Quanto mais conscientes da passagem do tempo num momento de espera prolongada estamos, mais nos confrontamos com um cansaço prematuro que culminará num estado de exaustão.” O artista/curador pergunta-se o quão esta exaustão atravessa a arte, e os seus sentidos, e o quanto ela pode ser motor de criação, uma força centrípeta que empurra a arte para a frente mas que não permite que esta saia do mesmo lugar. Se a arte do início do século XX foi marcada pelo movimento, ou pelos movimentos que se autodenominaram de vanguarda, que estavam à frente do seu próprio tempo, podemos dizer que a segunda metade do século foi marcada pela suspensão – do tempo, da poesia, da criação de imagens que pudessem, de alguma forma, retratar o que se vivia.

A segunda metade do Século XX, que dura em termos de cronologia das Artes, até à contemporaneidade, é marcada pelo pensamento Existencialista, que fala da morte de Deus e devolve aos homens o livre-arbítrio. É marcada ainda pela desesperança e pela descrença num mundo cada dia mais retratável e, paradoxalmente, menos palpável – a imagem substitui o objeto e entramos na era da iconolatria, como a denominou o pessimista Jean Baudrillard: destruir as imagens é uma tarefa perigosa. Se o original se perdeu, o que pode restar? “(…) o seu desespero metafísico vinha da hipótese de que as imagens não ocultassem absolutamente nada, e de que não fossem em suma imagens construídas a partir de um modelo original, mas tão simplesmente, simulacros perfeitos, irradiando para sempre o seu fascínio”. Cabe aos artistas retratarem, à sua maneira divergente, a nova realidade que se compõe de fragmentos de linguagens, de sobejos do mundo visível, de sobras ou das ruínas de um futuro que não se chegou a realizar.

Encontramo-nos diante de um labirinto simbólico que necessita ser decifrado para que se possa encontrar uma saída, ou criar novas portas dentro das limitações que o mundo impõe. Omar Calabrese acredita que “onde quer que ressurja o espírito da perda de si, da argúcia, da agudeza, aí reencontramos pontualmente labirintos”. Os pensadores da pós-modernidade sustentam que a época em que estamos deixou-nos numa grande encruzilhada, cada dia mais presos a uma espécie de tédio radical – de não-movimento, de espera.

E esta espera, no caso da exposição Wait, torna-se sujeito, verbo e objeto. Como afirma Orlando Franco, “Mais que criar uma perspetiva fatalista sobre a questão da espera, a exposição procura indicar direções que recuperem campos de possibilidades tão diversos quanto as especificidades de cada obra (…)”. A ideia de espera presente nesta exposição e em cada obra de artistas, e suportes tão diversos, postos em relação num diálogo permanente, permite avançarmos um pouco em direção a nós mesmos, à compreensão da nossa situação contemporânea e anacrónica. Como as personagens de Waiting for Godot, somos levados a voltar sempre ao mesmo sítio, a repetir os mesmos gestos mantendo viva a esperança de que a nossa espera não é vã. Mesmo tendo plena consciência de que Godot, enquanto houver amanhã, nunca irá chegar, porque a sua chegada indicará um fim e estamos ainda no meio do caminho.


 

Orlando Franco:
de Passagem pela Paisagem

Teresa Palma Rodrigues, setembro 2013

 

v4n8a37


 

BURNOUT ENTRE O PESO E A LEVEZA[1]

Maribel Mendes Sobreira, Junho 2013

XXI

Se queremos ser iniciados da vida, devemos reflectir nas coisas sob duas perspectivas:

Em primeiro lugar, a grande melodia, na qual actuam em conjunto coisas e perfumes, sensações e passados, crepúsculos e nostalgias, –

e depois: as vozes individuais, que preenchem e completam a plenitude deste coro.

E, para criar uma obra de arte, ou seja, uma imagem da mais profunda, da existência possível, não apenas hoje, mas em todos os tempos, será necessário pôr numa relação justa e equilibrar ambas as vozes, a de uma hora dessa mesma existência e a de um grupo de pessoas dentro dela.[2]

Rainer Maria Rilke

I

Partindo das palavras de Rainer Maria Rilke, um objecto de arte seja ele em que dimensão e suporte for, reporta-nos para o mais profundo da dimensão humana, para o que o ser tem de mais primordial: as suas sensações e acima de tudo a inquietação que faz rodar o tempo e a vontade de conhecer e desbravar caminhos. A arte, tem esse propósito, a de mostrar novas inquietações, novas construções de mundos possíveis e imaginários. De acima de tudo mostrar a realidade partilhada pelo olhar do outro, para que se possa deleitar dessa mesma partilha, como nos diz Henry David Thoreau “Ser o único a deleitar-se com algo é privar-se do verdadeiro deleite”[3].

Que deleite estético temos, por exemplo, quando olhamos para um objecto, como a cabeça de um motor pendurada numa parede? só por si, com o nosso olhar nada vemos de contemplativo num objecto em que a sua intenção é a pura funcionalidade técnica, como por exemplo, em Half a Head (Orlando Franco, 2013). Esse deleite surge quando o outro partilha o seu olhar, a sua visão do mundo para que não nos privemos de entender o mundo fora de nós, quando o artista Orlando Franco a coloca numa posição em que o objecto funcional é descontextualizado e através de jogos de luz ganha uma nova função: a de objecto artístico. A cabeça do motor transforma-se num livro aberto que por sua vez se transforma numa borboleta, tudo num jogo de luz e sombras, que nos remetem para as memórias guardadas num qualquer inconsciente colectivo.

II

O conjunto de trabalhos que o artista Orlando Franco nos apresenta sob o título BURNOUT, poderá ser entendido sobre essa relação da luz e sombra, o deslumbramento da realidade vivida e trabalhada pelo corpo do homem, do animal e da máquina,  através do peso e da leveza. A palavra Burnout pode-se dividir por burn (queimar) e out (exterior) sugerindo – segundo a psicologia – um comportamento acumulativo exteriorizado por uma explosão irracional de energia física e emocional que chegou ao seu limite deixando de funcionar por completa falta de energia.

O burnout  – nesta exposição – seria a evasão que  exterioriza o peso (burn), que se transformaria numa leveza partilhada para um universo exterior a nós. Não será essa a tarefa do acto criativo?, como que o esvaziamento de um enchimento emocional e conceptual que terá que ser exteriorizado no momento em que o corpo chega ao limite das suas forças?

III

Os trabalhos expostos remetem-nos para um ambiente onde o onírico e o saturniano estão ligados através do vídeo Untitled (Wind) (O.F. 2013), criando uma relação de uma densidade poética onde as nossas recordações são confrontadas com os sentimentos a que elas despertam. O olhar descansa mas a inquietação interior permanece… Objectos descontextualizados da sua função, aparecem como que num desdobramento da memória, que o observador vai construindo com as suas próprias vivências, sendo constantemente balançado entre reminiscências densas e ou leves.

A constante comum dessas reminiscências é o corpo, ou partes do corpo. Temos, por exemplo,  em Out of hand (after thousands hours)(O.F. 2013) a força do cavalo numa acção suspensa, como que num acto em que apercebemos a sua pré-existência da coisa consumada, realizada; temos o acto realizado mas não o vemos a acontecer, são os vestígios de uma memória que cada um construirá por si e em si, em confronto.

Este projecto que Orlando Franco apresenta sob o titulo Burnout, remete-nos para o enraizamento esquecido da infância, onde a procura da leveza e do peso funcionavam como um único elemento do jogo de um crescimento  irreflectido… a voz que imana do vídeo, preenche a sala, para nos recordar que somos criaturas do vento e de quão selvagem é o vento.

 

[1] Este ensaio não foi escrito segundo o novo acordo ortográfico

[2] Rilke, Rainer Maria, Notas sobre a melodia das coisas, editora Licorne;

[3] Thoreau, Henry David, Caminhada, Antígona Editores Refractários.


 

Rita Firmino de Sá, Maio 2013

BurnOut é o título do último projecto de Orlando Franco a ser apresentado na Plataforma Project 2. O artista explora, um conjunto de linhas de abordagem e caminhos possíveis, em torno do tema, ao qual se auto impôs. A exposição apresenta, objectos e imagens, que reformulam questões e premissas de acção suspensa.

Este projecto desvenda um universo pré-existente de pensamentos, discursos, processos inerentes ao trabalho do artista. Repisados e repensados de forma exaustiva, com intensidades pico, ora pacíficos, ora não. Através deste conjunto de imagens e objectos propõe questionar um ambiente (interior/exterior) apropriadamente designado por Burnout, um estado associado a uma acção repetitiva com diferentes graus de intensidade, culminados num extremo que criam, dão lugar a outro estado, com manifestações i/materiais. O efeito, a marca, a suspensão, a evidência entre estes dois estados, o rasto da sua passagem, são imagens que o artista dá a ver a um espectador disposto.

Burnout é o termo de eleição, proposto pelo artista não como título da exposição, mas como algo que define um universo particular pré-existente, de uma problematização com dimensões físicas e conceptuais. Para ele todo o processo é um Burnout. Seja um processo direccionado para a obra em si, seja inclusive para o acto de revelar, de dar à luz um conjunto de obras num acto público e expositivo. Nesta exposição presenciamos um questionamento sobre algo que se antevê o seu culminar, com olhos fixos no seu percurso que pensamos já conhecer. Todos os detalhes são um somatório de acontecimentos potenciados pelo contexto, muitos dos quais já exercem uma acção de domínio e de um poder pré-existente. Sem fuga. No seu espaço expositivo e encenação procura não deixar indiferença ao peso, á pressão que paira e atinge o espectador com a ideia de um ato pungente, doloroso, condicionado e repetido, uma vez mais. As narrativas de um ato, que se transformam em algo que pode remeter, ainda que vagamente, para uma poesia visual.

Do domínio da máquina, da manipulação da imagem nascem desenhos, sonoridades, novas imagens, que nos falam da metáfora daquele gesto e do seu tempo. O artista cria um percurso imaginário e convidativo que leva o espectador a percorrer a distância imaterial da acção/gesto e do seu efeito, da sua impressão/marca. A máquina, o homem ou o animal surgem como sujeitos da acção, da acção que nos distrai pela sua repetição, e nos surpreende com a sua marca.

O artista apresenta um conjunto de obras que passam pelos meios do desenho, fotografia, escultura e vídeoinstalação. O vídeo Untitled (Wind) conta com a colaboração de Cláudia Efe que interpreta e produz a composição sonora.

Rita Firmino de Sá, Maio 2013


 

Pietra Fraga, Lisboa 2013

No humilde rancho, a mãe de Funes recebeu-me. Disse-me que Ireneo estava no quarto dos fundos e que não me estranhasse encontrá-lo às escuras, pois Ireneo preferia passar as horas mortas sem acender a vela. (…) Dezanove anos havia vivido como quem sonha: olhava sem ver, ouvia sem ouvir, esquecia-se de tudo, de quase tudo. Ao cair, perdeu o conhecimento; quando o recobrou, o presente era quase intolerável de tão rico e tão nítido, e também as memórias mais antigas e mais triviais. Pouco depois averiguou que estava paralítico. Fato que pouco lhe interessou. Pensou (sentiu) que a imobilidade era um preço mínimo. Agora a sua perceção e sua memória eram infalíveis. (…) De fato, Funes não apenas recordava cada folha de cada árvore de cada monte, mas também cada uma das vezes que a havia percebido ou imaginado. Resolveu reduzir cada uma de suas jornadas pretéritas a umas setenta mil lembranças, que definiria logo por cifras. Dissuadiram-no duas considerações: a consciência de que a tarefa era interminável, a consciência de que era inútil. Pensou que na hora da morte não teria ainda acabado de classificar todas as lembranças da infância.

Funes, o Memorioso, Jorge Luis Borges

 

Aos 19 anos, Irineo Funes sofre um acidente que o deixa paraplégico e que lhe confere um extraordinário e maldito dom: a mais prodigiosa memória.

De acordo com o conto de Jorge Luís Borges, imobilizado e na escuridão do seu quarto, Irineo tenta escapar à instantaneidade da consciência, ao fluxo de informação sem qualquer filtro, ao vertiginoso rigor, exatidão e velocidade que o inflama e simultaneamente mortifica.

Fulminado pelo excesso de memória, Funes perdeu a capacidade de esquecer, e submergido na hiperconsciência dos átomos que o rodeiam, perdeu também a capacidade de se abstrair e de pensar.

A virtude e infortúnio desta personagem bem se compararia ao conceito da psicologia de Burnout, evocado por Orlando Franco na sua exposição individual que leva este nome. Definindo os estágios mais graves de esgotamento e depressão resultantes de um esforço insuportável, a exaustão, o desejo de extinção, a imobilidade, a noção entrópica de que todo o frémito, toda a fricção existencial, resulta na morte. Depois da combustão as cinzas.

Se de um ciclo repetitivo frenético advém o colapso, acredita-se que apenas do colapso pode advir a libertação.

Com frequência no trabalho de Orlando Franco a nostalgia pela libertação reside na insistência da tentativa, por exemplo, no recurso ao loop em vídeo: um dispositivo de aprisionamento de gestos usado para imortalizar tentativas, repetindo-as circularmente.

A fadiga dessa procura muitas vezes é protagonizada por forças brutas, animais, como cavalos, ou máquinas, como tratores – curiosamente, a força mecânica é frequentemente convertida em cavalos. Essas forças primárias tentam desempenhar (com insólito aparato) tarefas insignificantes, mas de grande precisão e de extraordinária delicadeza.

Assim, frequentemente constrói situações que constrangem essas forças primárias a desempenharem (com insólito aparato), tarefas insignificantes mas de grande precisão e de extraordinária delicadeza: como um cavalo de alta escola em pironette ou a vergar-se em vénia.

Ora, se por um lado o exercício sucessivo de tentativas apenas comprovam a intangibilidade da perfeição e da beleza, por outro remete para a obsessão em obtê-la.

Aqui tudo sucumbe ao desejo de sublimação: uma espécie de empreendimento romântico, ora belo, ora grotesco, que a arte decidiu levar a cabo; uma sucessão milenar de “tentativas” de representações do mundo; alusões a partir do particular para o todo ou universal, do fragmento como alusão ao inteiro.

No esforço de amestrar o domínio selvagem, está a metáfora da miséria e da glória da existência humana.

O sol é uma metáfora suprema dessa relação vertiginosa com memórias eco: do vital calor reconfortante ao poder incinerador (como no mito de Ícaro). Memórias que associamos a encontros com a eternidade, com forças ou no desespero de um amor absoluto, impossível de consumar ou de obter.

(Recordo a peça A Última Gravação de Krapp (Samuel Becket, 1957), onde um decrépito e solitário homem de 69 anos, revive a sua juventude ouvindo (em loop) gravações numeradas da sua vida relatadas por si próprio, assombrado na sua última fita na qual descreve a luz de um memorável equinócio, prelúdio de um amor incondicional e irredutível no passado).

Esse tipo de burnout, bem pode ser traduzido como supra estágio da derradeira tentativa em que os resquícios são os do trauma, ou a tendência vertiginosa de reviver as situações de tamanha intensidade que se suspendem como memórias-eco,que nos aterrorizam e consolam simultaneamente. Uma repetição que nos confronta. Um funambulismo entre o pavor de esquecer e o terror de recordar.

Essas memórias-eco são um epicentro com réplicas: aparições momentâneas casuais que, de tão intensas, parecem correr nas veias ou já nascer connosco.

No vídeo Untitled (wind), feixes de luz crepitante do sol são coados pelas frestas da janela e fervilham no chão da casa obscurecida, agitados por uma forte brisa, pela vegetação, pelo mundo indomável do lado de fora. O Sol fá-lo como sempre tem feito, imperceptivelmente e por milénios.

Ouve-se o vento e o vago chilrear dos pássaros ao longe. Desenha-se um espaço interior com a densidade lânguida da voz em loop que reclama por um longínquo e implacável amor, tão distante e selvagem quanto o vento e a vegetação lá fora e cuja presença se adivinha.

Como Irineo Funes, estamos no quarto dos fundos, às escuras, espectadores do que podemos suportar, embalados pelo torpor do calor do sol gotejado pelas fendas da janela fechada, sorvendo-o até adormecermos.

«A luz também é doce, e é bom para os olhos verem o sol»    Eclesiastes 11:7

Pietra Fraga, Lisboa

%d bloggers like this: