Adam James, Adam Knight, Ana Fonseca, Andrea Jespersen, Ann-Marie LeQuesne, Barton Hargreaves, Bob Matthews, Bronwen Sleigh, Carlos Noronha Feio e Martinha Maia, Cristina Ataide, Dick Jewell, Edd Pearman, Francisco Sousa Lobo, George Charman, Graça Pereira Coutinho, Jane Ward, Jessie Brennan, Jo Stockham, José Carlos Teixeira, Liz Collini, Mark Hampson, Mónica de Miranda, Nuno Vicente, Orlando Franco, Paula Roush, Pedro Valdez Cardoso, Richard Healy, Rui Horta Pereira, Susanne Themlitz, Tom Smith
Museu da Cidade – Pavilhão Preto e Jardins
De 23 de Junho a 5 de Setembro de 2010
Terça a domingo das 10h às 13h e das 14h às 18h
BurnOut (2010), o mais recente trabalho do artista plástico Orlando Franco (1977), surge no contexto da exposição colectiva, “ And then again”, como uma extensão ou afirmação contextual daqueles que têm vindo, desde há muito, a ser os conceitos charneira do seu trabalho. Desde muito cedo, ainda no seu percurso académico que o artista se interessa pelo poder da imagem, por um gesto grandioso, pela força, ou poder que nos são dados por algumas máquinas ou animais de grande porte. Algo, intermediado pela máquina que a produz e a sua visibilidade, o que nos é dado a ver. O significado ontológico da imagem foi explorado em diversas direcções. A escolha das imagens, seja em suporte fotográfico ou videográfico, tinham como objectivo reclamar a sua invisibilidade ou uma certa aparência da invisibilidade. Imagens que nos obrigam, enquanto espectadores, a desvendar o que está “ na margem do visível” (este foi inclusive, o tema de uma das suas recentes exposições, em parceria com o fotografo Pedro Dantas dos Reis).
A repetição do gesto/acção e a acção repetição/gesto são dicotomias concorrentes nas suas escolhas. Repetição da imagem original que nos dá uma nova imagem. A qual aparece mediante a disponibilidade e a sensibilidade de cada espectador. Relacionamo-nos sempre de forma diferente seja pelo que vimos, as relações com o referente, seja pela sensação ou emoção que o nosso contacto permite. Explorando convidativamente, à experiência do contacto… Existe, da parte do artista uma consciente intenção, de um condicionamento do olhar, criar sensações que não são planeadas, nem direccionadas. Talvez existam, mas não interessa saber como.
O fascínio do artista por um gesto de força e poder (o poder de convocar uma máquina ou um animal para um palco) e o seu movimento oposto de peso/leveza, (questões também próprias da pintura e da escultura) traduz-se pela sua proximidade com a vida. Sendo para ele um indício de vida. O seu gesto, o seu ritmo, o seu pulsar tem esta aproximação ao ritmo cardíaco, ao movimento de fôlego. O artista dá-nos a sentir não, simplesmente o movimento contínuo, mas o antes e o depois. O momento sem medida temporal, em que a força e a energia são reunidas para a acção. Não vemos apenas o gesto, mas o que o antecede, o que lhe dá suporte e o que o procede, o seu efeito, a marca. Simplesmente o que não vemos, quando distraídos pela intensidade da acção. O artista distrai-nos com esta sua escolha que privilegia gestos repetidos com grande intensidade. Contudo, a escolha recai quase sempre numa acção de força, que através da sua repetição, transforma-se em beleza, poesia ou até mesmo vaidade.
Em todo o seu processo de trabalho, destaca-se a presença de ritmo e desenho. Um ritmo explorado pelo gesto, um desenho dado pelo gesto. Vemos isso implícito na dança que um cavalo faz ao fazer a cabriola, um movimento/passo da alta escola (referência a um dos seus vídeos, Cabriola, 2004); nas marcas deixados pelo pneus dos tractores ou de uma mota (motor de 1tonelada pousado sobre papel, referente à instalação M.O.T.O.R, que resultaram em gravuras, marcas sobre papel) ; ou simplesmente o desenho que se inscreve na nossa retina depois de sujeitos ao movimento de loop. Este último é, muitas vezes, utilizado nos seus vídeos, em que existe uma acção curta, que é intensificada pela sua repetição exaustiva. Uma condensação, ou tensão de um gesto curto, mas repetido energicamente.
Em BurnOut, o artista, volta a apropriar-se de imagens, numa recusa consciente do original, num interesse evidente na acção/gesto. Mostra-nos um vídeo, um conjunto de imagens das quais se apropriou, onde o artista privilegia o referente, numa atitude de questionamento face ao motivo por detrás da acção. O interesse recai na estética da virilidade traduzida no controlo da máquina. Apropriação da imagem e a sua repetição. Apropriação da máquina e o seu domínio humano.
Vemos a repetição de um gesto por diferentes intervenientes. O trabalhar de uma mota, o domínio da máquina e a impressão resultante destas duas acções. Nas imagens fotográficas apresentadas na mesma sala, vemos o espaço de tempo intermédio, como que congelado. Não vemos o gesto, nem a marca (ou o desenho), mas apenas o fumo. Aqui, o fumo surge quase como metáfora, daquilo que se desvanece no ar, do imprevisível ou simplesmente do BurnOut. Estas imagens trazem-nos o momento poético preso nesta acção, um momento efémero congelado pelos stills escolhidos e apropriados pelo artista.
Rita de Sá
