Museu Bernardo – Caldas da Rainha,
Inauguração 18-09-09 22h até dia 20-09-09
projectos
Museu Bernardo – Caldas da Rainha,
Inauguração 18-09-09 22h até dia 20-09-09
TYRED – 2009
(da série a-na’sta-sis I)
Projecção vídeo cor/som; Dimensões variadas
ORLANDO FRANCO “TYRED”
Sentir o impacto físico da imagem de uma única e tonitruante roda de tractor a girar imparável dentro de uma “Sala” de poucos metros quadrados é apanágio do vídeo. A utilização não comercial deste meio, em benefício da arte, surgiu no final da década de 60 do século passado. Desde então, tem sido utilizado a par da instalação, aos projectos site-specific, que ganharam força com o Minimalismo de Serra ou Judd, com os quais o espaço específico da exposição se funde às próprias obras.
O artista plástico Orlando Franco apresentou no espaço “A Sala” a vídeo-instalação “Tyred” – palavra anglo-saxónica que não se esgota no correspondente português “pneu”, mas que remete, mais expressivamente, para a palavra homófona “Tired” que, significando “cansaço” ou “exaustão”, direcciona mais e melhor no sentido da obra aqui proposta pelo artista.
Neste trabalho de Orlando Franco, não é a realidade captada pela câmara que nos é dada a ver mais de perto no contexto da exposição. A roda é um pretexto para ver o que está para além do visível. A oportunidade de contemplar o movimento e as forças que implicam um esforço. Essa acção contida e propositadamente arrastada, quase sofrida, acentua a tomada de consciência de coreografias quotidianas que, habitualmente, não conseguimos ver repetidas.
O artista, ao constranger esse movimento mecânico através dos meios tecnológicos, cria um efeito hipnotizante no qual a superfície da borracha deixa de ser coisa, para passar só a ser a acção. Mais facilmente captado na máquina, pela sua previsibilidade, o tractor é apenas um álibi que comprova esse interesse do artista pelo movimento, enquanto indício de vida – a “máquina mimetiza a vida”, afirma o artista.
Encaixado entre duas portas, o pneu move-se em sequências alternadas, parecendo encastoado entre eixos de rotação que pertencem ao espaço. Na sequência em loop, é impossível dizer quando avança ou recua; a percepção de mudança de ritmo dá-se graças a uma pausa no som, que assinala um esforço redobrado da máquina do tractor.
Mas porque é, frequentemente, nos intervalos que se ganha fôlego, ou se concretizam as mudanças, a dimensão espiritual deste movimento é também interior e intensifica-se na mudança de direcção ou de ritmo indiciada pelo som, como um ressurgimento de forças. Ou uma ressurreição. Este é, aliás, o significado do nome grego da série que este vídeo integra – “a-na’sta-sis”, série na qual a mecânica revivescente também está presente através de imagens em movimento.
Rendido às possibilidades do vídeo, talvez por ter sido um dos beneficiários da telescola, a 50 km de Lisboa, no Cartaxo, Orlando Franco tem desenvolvido um percurso tão ponderado como a sua obra, nomeadamente através do desenho que complementa, habitualmente, a realização de filmagens – apesar de não ser, necessariamente, uma preparação para estas e funcionar como trabalho de reflexão autónomo. No futuro, as instalações do artista poderão passar por apresentar as máquinas, lado a lado com os vídeos.
Licenciado em Artes Plásticas pela ESADE (Escola Superior de Artes e Design) das Caldas da Rainha, o artista tem investigado e reflectido sobre registos deixados por artistas como Richard Prince, Hiroshi Sugimoto ou Anish Kapoor. Sendo as fontes de interesse diversificadas, no trabalho de Orlando Franco subjaz a ideia de que, hoje, num tempo pós-histórico, o artista é – quase naturalmente – conceptual. Mas, arriscaria dizer, não necessariamente pós-utópico.
Margarida Rocha de Oliveira
Cabriola – 2004
Vídeo Instalação; cor/ som; 10 min; Dimensões variadas
Cabriola é o nome técnico para uma manobra equestre desenvolvida inicialmente em estratégias militares. Corresponde a um salto onde o corpo do cavalo atinge uma elevação total.
O treino desta manobra equestre é extremamente complexo e rigoroso, exige acima de tudo, um nível de concentração elevado, na relação entre o equitador e o cavalo, numa comunicação sincronizada entre ambos.
A tensão das imagens, dos movimentos, são resultado de uma relação baseada num treino intenso, numa prática diária.
O vídeo capta momentos de um treino que faz repetir o movimento na tentativa da perfeição do gesto.
L.I.M.I.T.E 2008/2009
Instalação de desenhos; Tinta da china s/ papel, dimensões variadas
Entrevista de Cláudia Cláudio a Orlando Franco
Cláudia Cláudio- Fale-me do percurso que o conduziu à realização do trabalho que agora apresenta.
Orlando Franco- Os desenhos que apresento na exposição BY THE BOOK apresentam uma relação diária com o desenho. Um trabalho que tenho vindo a realizar em paralelo com as vídeo-instalações. Quando penso num plano, enquadramento ou numa sequência em vídeo, esboço-a primeiro como desenho mental e depois passo-o para o papel. O desenho enquanto forma de pensamento está bastante presente no meu processo criativo. Estes desenhos não são planeados, surgem no gesto enquanto desenho. No final ocupam o espaço…
CC- Nestes desenhos a paisagem surge de um modo contido. Esta abordagem é intencional?
OF- A contenção é uma ideia, ou melhor, é uma sensação que me persegue…
CC- Quando se fala no seu trabalho é inevitável não fazer referência ao conceito de tensão e, na realidade, quando vi estes desenhos os mesmos reportaram-me de imediato para o sobredito conceito. Fale-me da apropriação que faz deste conceito.
OF– Uma força pressupõe acção. Uma força num espaço contido está em tensão, interessa-me o momento imediatamente anterior ao movimento.
CC- Estes trabalhos, não são apresentados de um modo linear ou sequencial. Conjuga desenho e instalação. Porquê, esta opção?
OF- A obra tem de se instalar no espaço. O espaço potencia ou condiciona o objecto…
CC- Num texto que escreveu sobre esta exposição afirma: “As imagens que aqui surgem, são desenhos que em primeiro lugar foram imagens”. Há, portanto, da sua parte uma preocupação em torno do conceito de imagem e da sua materialização?
OF- Sim. Imagens e sensações.
Entrevista realizada em Abril de 2009
http://projectobythebook.wordpress.com
M – O – T – O – R - 2008
Instalação vídeo, cor/som, 13 min – loop; dimensões variadas
2 impressões (base de motor de 1 ton.) sobre papel; 2 desenhos sobre papel
Um empilhador industrial levanta e desce um motor de 1 tonelada. Este movimento repete-se em 3 sequências, com velocidades distintas, perante o enquadramento fixo da câmara.
No confronto com a vídeo projecção o espectador experimenta novas sensações de escala na relação entre corpo e a projecção. O olhar é condicionado pelos movimentos lentos e mecânicos. As cintas que prendem o motor aos garfos do empilhador encontram-se no centro de toda a vibração da imagem. Estas concentram no mesmo plano, a tensão absoluta seguida de uma libertação controlada e comedida.
Os desenhos preparatórios do vídeo surgem como extensão imediata do pensamento e da ideia. Interessa-me o confronto entre estes esboços preparatórios e um certo desfazamento com o resultado final.
O projecto inclui 2 impressões da base do motor sobre papel. O resultado é 1 tonelada impressa em papel.
Orlando Franco 2008
http://enganar-a-fome.blogspot.com
a-na’sta-sis II (#1; #2; #3) 2006/ 2008 3 Vídeo –Instalações; cor/ som; projectores vídeo; leitores DVD, amplificadores, colunas
“Na margem do visível” é o título da exposição colectiva que reúne o ultimo projecto fotográfico de Pedro Dantas dos Reis e as ultimas vídeo – instalações de Orlando Franco. O conceito da exposição centra-se nas pesquisas dos dois artistas que apesar de distantes, quer do ponto de vista formal, quer conceptual cruzam intenções em torno do dispositivo da imagem e das interrogações que esta introduz no espectador. Encontramos nos trabalhos de Pedro Dantas dos Reis um conjunto de questões perceptivas em torno da luz e da sua composição física. Estas fotografias resultam de longas exposições (entre 20 a 30 min.) de paisagens nocturnas, muitas delas imagens estereotipadas, como as imagens de praias típicas algarvias. As vídeo-instalações que Orlando Franco apresenta assentam numa questão fundamental: o poder da imagem e os efeitos profundos que esta introduz no espectador. A singularidade deste trabalho consiste num conjunto de projecções vídeo (que pretende a escala natural dos animais ou superior) de vários cavalos que se espojam de forma ritmada provocando uma hipotética sintonia programada.
a-na’sta-sis - Fernando Poeiras
Imagem única. Alguns artistas repetem, ao longo do seu trabalho, uma única imagem. Apesar de muitas diferenças e versões, e da utilização de diferentes meios e suportes, procuram restituir uma única e mesma imagem. No trabalho de Orlando Franco qual é essa imagem? Na sequência que forma o conjunto de trabalhos a-na’sta-sis qual é essa imagem única?
Re-viver. A função dada à arte não é apenas fazer, a função de construir um artifício, mas também a de desfazer. O desejo de “repetição” alimenta-se, por vezes, do desejo de re-viver, de viver o “mesmo” mas de outro modo. Experimentamos nesse re-viver uma liberdade que supera as resistências daquilo que foi vivido, tal como foi vivido. Os “rituais” de purificação, ou os de renascimento, inserem-se na linha de partilha entre o trabalho da liberdade de viver e as escórias do vivido. Experimentamos também esse re-viver nessa linha (contínua e descontínua) entre o animal e o humano. Aqui o animal não é a fera, abandonada ao instinto de conservação, nem propriamente o animal domesticado, mas o animal “ritual”.
Acção-imagem. Uma “situação” não é uma acção que ocorre singularmente, como um acontecimento único, é sobretudo uma acção que recorre, sob circunstâncias determinadas. O primeiro trabalho de a.na’sta.sis é uma acção: provocar a repetição da recorrência e exibir algumas das suas condições para a imagem fixar. Se as actividades, em que nos ocupamos, são apenas meios para um fim quotidiano, e a acção livre se caracteriza por se libertar das suas condições, a “situação” aqui construída exibe a fragilidade das suas condições: rito artificial ou artificio ritual.
Imagem-acção. O interesse pela saturação da imagem é já um interesse pela imagem, por uma potência da imagem que a distingue da “imagem do real”. Assim, retomar uma escala “real”, a versão tríptica do mesmo ritual, o desacelerar do movimento da imagem, que recorre em loops, adquirem uma mesma função: saturar a imagem, e exibir a acção à concentração do espectador.
Tangibilidade. O que não pode ser repetido? O que é exterior à imagem, o irremediável, as coisas e os factos, o que é como é. Tudo o que é na sua tangibilidade resiste. Nas imagens saturadas de a.na’sta.sis persistem, e resistem, as marcas da acção e a tangibilidade do real.
Caldas da Rainha, Abril 2008
NC – Ao ver os vídeos senti uma espécie de confronto entre energia e opressão …como se houvesse uma contenção entre forças e tu estivesses a trabalhar ali, no limbo…entre a explosão dessa energia e o corpo enquanto invólucro.
OF – A ideia de força e energia, são conceitos que me interessam. Interessou-me muito captar toda aquela energia dos corpos numa movimentação pouco comum. Não estamos habituados a ver este tipo de movimentos, neste caso, um conjunto de gestos que foram provocados por mim. Tive a intenção de captar uma explosão… uma explosão interior, que se traduz numa espécie de terror visual, mas de uma certa libertação para o animal…
NC – De alguma forma, tu dizes que essa libertação faz parte, mas depois eles encontram-se num espaço muito contido…
OF – Sim, é um contraste…
NC – A ideia de que eles estão numa moldura, numa caixa de onde não podem sair, está presente. A seguir instalas os vídeos, pondo exactamente as pessoas nesse mesmo sítio, isso levanta uma questão que é: existe aqui um carácter humano?
OF – Não de forma ilustrativa ou metafórica. Interessa-me aquilo que os minimalistas faziam, a criação de um confronto e uma interacção com o espectador. Nesse sentido pode haver uma relação. Vão existir interpretações, um conjunto de sensações, que surgem naturalmente, mas não são planeadas.
NC- Outra coisa que eu também achei curiosa, foi o som em relação ao movimento, ele próprio parece que tem um carácter pictórico…não é só a imagem do próprio movimento.
OF – Sim, ao ser atrasado, acompanha o arrastamento do movimento do corpo. Aumenta percepção do espectador em relação ao detalhe …tu tomas atenção a todos os detalhes de uma pintura, porque ela está parada.
NC – O espectador fica como se fosse passivo – contemplativo, de uma acção que está no limiar.
OF -Sim, eu provoco a acção, a câmara capta e depois a imagem e som são apenas atrasados e reinstalados. O espectador fica atento a observar. É só isto.
NC – São elementos que reforçam a ideia de movimento, o tractor, o cavalo, este ultimo simbólico de viagem, do andar, do se movimentar, são ícones da ideia de movimento. Mas tu depois, ao mesmo tempo, tomas uma atitude passiva. Estás lá parado a filmar, como se estivesses de fora, noutra dimensão qualquer, atrás de um vidro, contemplativo dessa…se calhar tem qualquer coisa de poético…de contemplação poética…desse confronto de energia, de limiar entre a explosão de energia…
OF – É uma aproximação poética, é sobretudo isso…
Lisboa, Abril de 2008